Bahia Cultura
A continuidade da Sociedade Orpheica Lyra Ceciliana está ameaçada após 156 anos de existência
Questões burocráticas impedem parcerias e esses entraves precisam ser superados para impedir que parte da história baiana seja silenciada
19/04/2026 11h03 Atualizada há 4 horas
Por: Redação Fonte: Nadia Freire. Editora SCR Recôncavo
Ensaio da filarmônica. Foto Daniel Freire

A Sociedade Orpheica Lyra Ceciliana não é apenas uma filarmônica antiga. Trata-se de uma das instituições musicais e culturais mais simbólicas do Recôncavo Baiano. Fundada em 1870 na Igreja de Nossa Senhora da Conceição do Monte, na cidade de Cachoeira, pelo maestro Manoel Tranquilino Bastos, um grande músico e abolicionista, a Sociedade Orpheica Lyra Ceciliana é considerada uma das mais antigas do Brasil. Sua história fala não só de música, com ela se misturam luta antiescravista, preservação da memória negra e educação popular.

O que a Lyra representa de fato

Historicamente, a Lyra ajudou a formar músicos, manter bandas civis, conservar partituras e oferecer ensino musical gratuito ou acessível a jovens. Também funciona como símbolo da identidade cultural cachoeirana, cidade reconhecida nacionalmente por sua importância histórica e afro-brasileira. Pesquisas sobre filarmônicas baianas citam a Lyra como uma das mais relevantes e tradicionais do estado.

Dificuldades reais enfrentadas hoje

A instituição está asfixiada por falta de recursos, sobrevivendo graças à determinação dos seus gestores, liderados pelo presidente, o advogado José Luiz Bernardo.  Mesmo enfrentando todas as dificuldades, decidimos que não fecharemos as portas da Escola, por entendermos que esse projeto é importante para inserir socialmente nossas crianças e adolescentes, para uma futura atividade profissional no mercado musical”, afirmou o presidente da Lyra ao repórter do jornal A Tarde. A Escola de Iniciação Musical Maestro Irineu Sacramento, frequentada por 70 crianças e adolescentes, mantida pela Lyra de forma precária, é fruto dessa determinação.

As informações recentes apontam um quadro crítico, que não começou agora, mas se agravou:

1. Falta de financiamento contínuo

A principal crise atual é financeira. Segundo reportagem recente no jornal A TARDE, faltam recursos até para pagar funções básicas como maestro e zelador. 

2. Dependência de apoio eventual

Instituições assim costumam sobreviver com editais esporádicos, doações isoladas ou promessas políticas. Isso impede planejamento de longo prazo.

3. Burocracia documental

A burocracia monstruosa sufoca a instituição, que só agora, em 2026, conseguiu comprovar sua existência junto à Receita Federal.

4. Modelo de gestão fragilizado

Estudo acadêmico registrou informalidade administrativa, concentração da gestão na presidência e inexistência de quadro social ativo. Isso enfraquece a governança e a sucessão institucional.

5. Manutenção patrimonial

A sede histórica existe, mas demanda conservação constante. Imóveis antigos geram custos altos com estrutura, telhado, elétrica e segurança.

6. Competição por atenção pública

Hoje projetos culturais disputam recursos com demandas urgentes de saúde, assistência e infraestrutura. Sem pressão social, patrimônios culturais ficam para depois.

Nossa editora fez uma breve consulta a especialista em negócios e estabeleceu uma lista de sugestões para o enfrentamento do problema:

O que precisa ser feito para salvar e fortalecer a Lyra

Medidas urgentes (0 a 6 meses)

1. Plano emergencial financeiro
Campanha pública para custear maestro, zeladoria e escola musical por 12 meses por meio de sócios mantenedores com mensalidades populares para centenas de apoiadores. Acionar os músicos com carreiras consolidadas para se associarem à campanha, divulgando e contribuindo.

2. Convênio com a prefeitura e o governo estadual
A Prefeitura Municipal de Cachoeira e o Governo do Estado da Bahia poderiam estruturar repasse institucional mediante metas culturais.

3. Reconhecimento patrimonial ampliado
Acionar IPHAN e o IPAC para proteção material e imaterial mais robusta.

Médio prazo (6 a 24 meses)

4. Reestruturação de governança
Criar conselho gestor com músicos, comunidade, empresários, universidades e ex-alunos.

5. Captação via Lei Rouanet e Fazcultura
Projetos anuais para restauração, bolsas para alunos e circulação musical.

6. Turismo cultural
Inserir visitas guiadas da Lyra no circuito turístico de Cachoeira e São Félix.

Longo prazo

8. Centro de Memória da Música do Recôncavo
Digitalizar partituras, fotos e documentos históricos.

9. Escola profissionalizante de música
Transformar a atual iniciação musical em polo permanente de formação.

Scr Recôncavo continuará atento com foco nos desdobramentos desse pleito.