A Justiça da Bahia confirmou medidas protetivas em favor de integrantes idosas da Irmandade da Boa Morte, em Cachoeira (BA), uma das mais importantes instituições religiosas e culturais do país. As mulheres, com idades entre 83 e 97 anos, denunciaram agressões físicas, ameaças e constrangimentos supostamente praticados por mulheres que integravam o grupo na condição de noviças.
Segundo os relatos apresentados no processo, as vítimas afirmaram temer por suas vidas, inclusive diante da informação de que uma das envolvidas possuía armamento. O pedido inicial de proteção havia sido negado em primeira instância, levando a Defensoria Pública do Estado da Bahia a recorrer ao Tribunal de Justiça da Bahia.
Em agosto de 2025, o Tribunal concedeu decisão liminar favorável às irmãs. Já em abril de 2026, a Segunda Câmara do TJ-BA retomou a análise do caso e manteve a proteção anteriormente estabelecida.
Fundada no século XIX por mulheres negras, muitas delas ex-escravizadas e descendentes de africanas, a Irmandade da Boa Morte é reconhecida nacional e internacionalmente por sua relevância histórica, religiosa e cultural. Sediada em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, a confraria reúne tradições do catolicismo popular e heranças afro-brasileiras, sendo símbolo da resistência feminina negra no Brasil.
Todos os anos, a celebração da Boa Morte atrai visitantes, pesquisadores e devotos de diversas partes do mundo, movimentando o turismo cultural e religioso da região.
De acordo com integrantes da irmandade, o conflito teria relação com desrespeito às normas internas e à hierarquia histórica da instituição. As noviças representam a fase preparatória antes da consagração como irmãs efetivas, passando por período de formação, disciplina e acompanhamento.
A irmã Cleuza Santana afirmou que houve comportamentos incompatíveis com a tradição da entidade, gerando tensão psicológica e desgaste entre as integrantes mais velhas.
A defensora pública Ethiene Wenceslau destacou que as medidas protetivas permitiram maior tranquilidade às idosas e garantiram a preservação de seus direitos fundamentais. Apesar da manutenção da decisão, o processo principal continua tramitando na comarca de Cachoeira.
O caso chama atenção não apenas pelo aspecto judicial, mas por envolver uma das instituições mais emblemáticas da memória afro-brasileira, cuja preservação depende também da harmonia interna e do respeito às suas tradições centenárias.